23 de janeiro de 2017

O caminho da poesia brasileira

Nas andanças pelo Google, encontrei o meu blog Varal de Poesia citado nessa matéria do Marcelo Oliveira, do blog Vida de Escritor.
Interessante a análise feita sobre o espaço que a poesia ocupa no mercado editorial brasileiro, muito restrito, infelizmente. Mas bom saber que estou contribuindo para manter viva, de alguma forma, essa arte, ajudando a divulgar os poemas de quem assim o desejar, pois sei o quanto é difícil através das editoras. O mundo necessita de mais poesia ou melhor, de pessoas que tenham sensibilidade para escrever ou apreciar poemas. Quem ama poesia é capaz de olhar para dentro de si e do outro.

O caminho da poesia brasileira

Avesso a antologias, as Editoras brasileiras ainda refutam em publicar nossa poesia.

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Assisti na última semana uma entrevista com o nosso maior poeta vivo Ferreira Gullar. Dele ouvi uma triste afirmação de que a mais de cinco anos o poeta não mais escreve e que muito provavelmente não mais escreverá. Gullar nos diz que poetizar não é simplesmente sentar e escrever. Um cronista se prepara para escrever sua crônica diária, assim como um jornalista antevê seu texto para sua próxima Coluna e um livro é preparado com todo esmero e pesquisa pelo romancista. A poesia não. O texto poético, segundo Gullar precisa vir num espanto, num susto, para ser diluído em seguida em palavras. Não é tarefa fácil.

O poeta Ferreira Gullar.

Com isso, pouco se falou do futuro da poesia. Falou-se do passado, de como o livro Poema Sujo de Ferreira Gullar revolucionara uma geração poética já no ano de 1959 e como que, junto com Amílcar de Castro, criou-se uma escola ainda mais voraz que o concretismo, nascia no Brasil os neoconcretistas, talvez a única escola artística verdadeiramente brasileira, reconhecida mundialmente como um importante movimento de vanguarda. Modesto, o intelectual Gullar apenas diz que o neoconcretismo surgiu apenas da necessidade. Houve os concretos e que para seguir adiante haveria de se quebrar novos paradigmas, pois a grande roda da vida gira e estes artistas vieram para criar esta ruptura, novas formas de experimentação, um olhar mais subjetivo sobre as novas formas artísticas que vinham surgindo, uma nova categoria, que por acaso chamou-se de neoconcretismo.
Pois sim, dentro das artes, ou mesmo dentro da poesia, o que falta talvez seja uma nova ruptura.
Quando falamos em poesia brasileira, quem nos chega são os clássicos ou os novos clássicos. Não nos escapa à mente Quintana, Drummond, Bandeira, Cecília Meirelles, Leminski e acabamos por deixar de lado os contemporâneos que por uma simples causa, acabam por ser esquecidos e, sistematicamente, desconhecidos.

O livro de poesia se reduziu a esfera de um pequeno nicho de leitores


A poesia marginal de Torquato Neto.

Nosso Mercado Editorial hoje possui uma grande equação de produtividade e financeiramente só perde para o setor de tecnologia. Livros são muito procurados, seja para ser lidos, apenas para enfeitar prateleiras ou mesmo para se presentear. Os meios digitais não assustaram de maneira alguma o livro físico, pelo contrário, veio para somar. Mas o Mercado Editorial da poesia ainda continua escasso, reduzido a pequenos nichos de leitores, nichos que se reduzem ainda mais à medida que o novo não é divulgado ou mesmo publicado.
Dentro do quadro histórico da poesia tivemos poucas rupturas, entre as mais expressivas, o movimento moderno de Oswald de Andrade; o manifesto concretista de Pignatari e dos irmãos Campos (Haroldo e Augusto); também dos neoconcretistas, como já comentei, sobretudo de Gullar, Jardim e Spanudis; da poesia marginal nos idos anos 1970, com Chacal e Torquato NetoLeminski e Geraldo Carneiro (a geração do mimeógrafo, como era conhecida); depois temos um pequeno movimento que aconteceu nos anos 1990, algo pasteurizado e inexpressivo fomentado por poetas que segundo a Professora e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda: “Uma poesia que refletiu apenas a apatia de uma geração marcada pelas pressões do mercado e das novas tecnologias, pela cultura de massa e, portanto, pela ausência de qualquer projeto transformador ou inovador fosse ele político ou estético (…) uma geração de poetas sabidamente considerada como um atraso em relação ao modernismo.”

A Internet como um fôlego para produção da poesia contemporânea

Segundo índices apontados pelo Yahoo, só hoje na Internet brasileira temos mais de 593 sites falando e produzindo poesias diárias. Entre esses tantos endereços eletrônicos, a troca de textos poéticos e a divulgação são feitos através de concursos para antologias. Entre algumas editoras que se interessam em publicar e comercializar livros de poesia para novos autores posso citar a Expressão Literária; a Editora Patuá; a Editora Leya (que tem uma preocupação interessante com a poesia contemporânea de vanguarda); a Editora Inverso; a Editora Mutuus (que cria antologias interessantes para novos autores). Enfim, são poucas, mas expressivas. A Internet ainda é uma plataforma mais abrangente para acompanhar o que os novos poetas estão produzindo.

O poeta Augusto de Campos.

Antes tínhamos bons jornais de poesia circulando pela cidade, mas os blogs vieram para substituí-los. Revistas literárias ainda mantêm uma fórmula de divulgação da nova poesia que é louvável (a Revista Cult, da Editora Bregantine, é um bom exemplo), mas os sites e blogs ainda são uma vitrine para jovens poetas.
A poetisa Francieli Spohr mantem uma revista literária chamada Máquina do Mundo onde se pode ler um pouco de sua insólita poesia; a Educadora Marli Fiorentin escreve em seu blog Varal de Poesia colocando a música certa para ouvir junto com a poesia lida, bem bacana; o blog Curta Poesia também é uma boa pedida, apesar de trabalhar bastante com os modernos; também coloco aqui o blog Poesia em Si, da poetisa Simone Prado Ribeiro; para fechar, o blog Moloko com Vellocete, da poetisa Luana Mineiro, também deve ser conhecido.

Enfim, voltamos a Ferreira Gullar

Na entrevista com o poeta Ferreira Gullar observou-se a preocupação do intelectual com a falta de novas correntes poéticas. É como se Gullar tentasse explicar em cada afirmação qual o propósito, ou melhor, o despropósito de se fazer poesia. De uma maneira ou de outra, fazer poesia tornou-se um mero acaso no Brasil de hoje e por isso ela (a poesia) tornou-se uma arte sem movimentos. Talvez o último manifesto válido tenha sido a poesia marginal dos anos 1970 e de lá para cá apenas tentamos nos reinventar sem chegarmos a qualquer outro tipo de ruptura. Na base do “o que está feito está feito”!
Não podemos esquecer que hoje, o poeta Augusto de Campos usa e abusa da tecnologia digital para abordar o público com suas poesias concretas. Vale a pena conhecer o seu site e se deliciar com o que um grande poeta de gerações pode ainda fazer se reinventando e procurando novas e intrínsecas rupturas.

Um comentário:

Assinatura electromagnética disse...

Texto que faz a apologia dos poetas! Bom!